
Sobre observar, conhecer e aprender a cuidar.
Vi recentemente um excerto de uma entrevista com o educador José Pacheco em que ele contava uma história sobre Vivaldi e um grupo de crianças. Ficou comigo.
Pelo que percebi, tinha sido convidado para dar música a crianças e, em vez de escolher as músicas infantis que normalmente se põem a tocar nestes contextos, começou a pôr Vivaldi. Houve estranheza. Talvez até algum desconforto. Afinal, não era a música “esperada” para crianças.
Mas ele continuou.
Ao fim de alguns dias, por alguma razão, a música não tocou. E foi então que encontrou um grupo de crianças a brincar em roda e a cantar uma melodia de Vivaldi.
Tinham ouvido. Tinham guardado. Tinham tornado aquela música parte da sua brincadeira.
A frase que acompanhava este excerto era simples mas clara:
Só se ama aquilo que se conhece.
Lembrei-me também de Fernando Pessoa:
Primeiro estranha-se, depois entranha-se. (First we find it strange, then it becomes part of us.)
Tenho pensado muito nisto no nosso espaço.
Há experiências que uma criança talvez não escolha à partida, simplesmente porque ainda não as conhece: a música de Vivaldi, andar descalça na relva, segurar num bicho-de-conta, tocar num ovo acabado de pôr, reconhecer uma planta pelo cheiro, martelar um prego, observar um caracol sem pressa.
Talvez primeiro se estranhem. Mas, com tempo, cuidado, contexto e liberdade, algumas dessas experiências começam a entranhar-se.
Quando falamos em respeitar os interesses da criança, isto parece-me muito importante. Seguir a criança não significa limitar o mundo ao que ela já conhece. Também é papel do adulto abrir portas, preparar encontros, oferecer possibilidades.
Depois, observamos.
O que atrai a criança?
O que a repele?
A que volta?
A que repete?
O que transforma em brincadeira?
O que começa a viver nela?
No Alo Lira: Exploradores do Jardim,queremos que as crianças conheçam a natureza de perto, com tempo suficiente para que ela deixe de ser cenário e passe a ser relação.
Antes de pedirmos a uma criança que cuide da natureza, talvez seja preciso dar-lhe tempo para a conhecer. Não como uma ideia grande e distante, mas como uma presença concreta: esta árvore, esta folha, esta abelha, este caracol, esta terra depois da chuva, este lugar que muda todos os dias.
Quem sabe, depois de conhecerem os caracóis, aprenderem sobre a sua relação com o resto do jardim e o seu ciclo de vida, as crianças sintam um especial prazer em descobrir como se fazem as espirais de Fibonacci para desenhar as suas carapaças, enquanto ouvem histórias sobre quem foi Fibonacci.
Talvez uma canção antiga ganhe outro sentido:
Caracol, caracol
põe os pauzinhos ao sol.

E, de repente, o caracol já não é apenas um animal pequeno que apareceu no caminho. É um ser vivo com um corpo curioso, uma forma bonita, um lugar no jardim, uma história, uma relação com a humidade, com as plantas, com o solo, com o tempo.
É assim que a curiosidade pode crescer.
Qual é o papel da cigarra?
Como acontece a polinização?
Porque é que os favos das abelhas têm forma hexagonal?
Como se pode descobrir onde está o Norte sem bússola?
Que espécie de animal é, afinal, uma abelha?
A natureza pode ser inspiração para arte, língua, ciência, matemática, física, geografia, história, biologia. Mas, antes de tudo isso, pode ser encontro.
Queremos preparar um ambiente rico, vivo e cuidado, onde a criança possa encontrar coisas novas e aproximar-se delas ao seu ritmo, sem forçar o gosto pela natureza nem criar relações académicas artificiais.
A investigação sobre ligação à natureza tem apontado nesta direcção: o contacto significativo com o mundo natural está associado ao bem-estar, ao sentimento de pertença e a comportamentos de cuidado ambiental. E essa ligação não nasce apenas de saber nomes ou factos. Cresce também através do contacto, da beleza, da emoção, do significado e da compaixão.
Isto faz sentido para mim.
É difícil cuidar profundamente de algo que nunca tocámos, observámos, cheirámos, esperámos ou ajudámos a crescer.
Por isso, talvez o nosso trabalho comece aqui: criar condições para que a criança se encontre com o mundo vivo através da música, da terra, dos bichos, das plantas, das perguntas e da surpresa.
Primeiro, talvez se estranhe. Depois, com sorte e tempo, entranha-se. E quando se entranha, talvez comece também a nascer o cuidado.
No Alo Lira: Exploradores do Jardim,preparamos estes encontros com intenção: natureza, música, trabalho com significado, liberdade, cuidado e tempo.
Se gostaria que a sua criança vivesse esta experiência, venha experimentar uma sessão connosco.